Mais essa agora

olho-de-cachorro

   Já reparou nos amantes? Suas mãos escorregadias, respiração quente. O jeito com os corpos se tocam e como a luz parece percorrer suas silhuetas de uma maneira diferente? Roupas, peles, línguas, carne, cabelos se tornam um em um turbilhão de fazer uma supernova inclinar-se um pouquinho só para a esquerda. E depois de explorarem todo o universo por instantes, se encontram novamente bem ali, naquela esquina.

Hoje nem saberia dizer se eles sentem amor de verdade, daqueles casais que vemos a pele enrugar, os ombros caírem e a vida bater tanto e tanto que nem vão parecer as mesmas pessoas, mas estarão juntas, lado a lado admirando tudo que foi e ainda ansiosos pelo que ainda falta vir. Não, talvez tenham trocando poucas palavras, descoberto que tem poucos gostos em comum, mas gosto importantes, daqueles que enchem de nostalgia e sorriso a vida de gente ainda tão jovem. Então devem ter se visto pela primeira vez, aquela forma de olhar meio diferente que faz você parar de reparar que ele não é tão alto assim e que ela não tem tanto peito como aquelas moças da revista.

E vem o toque, e vem aqueles eternos segundos de aproximação e, kabum. Dependendo do andamento das coisas aquele beijo pode ser uma briza matinal, um big bang ou Hiroshima, só o tempo dirá. Ainda assim não da pra dizer que os amantes não chamam a atenção.

Até mesmo podemos ver que o touro enfurecido correndo pelas ruas dessa pacata cidade, não acostumada a touros, desvia o olhar de seus múltiplos alvos enlouquecedores para deixar fitar o quão atentos uns aos outros estão aqueles jovens. Ele mesmo, o touro, se sente insignificante e nós podemos ver, estampado em sua negra e grande retina como bailão aquosamente o amor dos amantes.

Já reparou nas retinas dos herbívoros? Da maioria deles, ao menos, talvez só dos quadrupedes, não sou um especialista, mas são gigantescas! Parecem o céu em uma cidade grande. Negros e profundos e que você sabe que tem mais coisa ali do que só a profundidade negra. Se não fossem as luzes, a poluição e até tanto barulho, haveria algo lindo e glorioso. Porem, está negro.

Lembro a primeira vez que vi uma vaca pastando com aquela cara de tédio de quem faz o que tem que fazer só por que tem que fazer, nem que o compromisso seja comer ou ficar parado no sol. Ela, a vaca, estava meio perto de mim e ficava me olhando, dois olhos gigantescos. Eu fiquei imaginando como será que era ver o mundo com olhos como aqueles. Será que ela via mais do que eu? Via o passado e o futuro, as possibilidades todas e cada fragmento do acaso do que foi e do que será e, sabendo de tudo isso, sentia o imenso tédio que a desmotivava ao ponto de não querer ficar em pé e fazer coisas legais como ir ao cinema? E sabendo que tudo é impossível ou previsível faz a única coisa que importa: comer e aproveitar o sol?

Depois meu vô disse que vacas são burras e fazem umas burradas que é de dar dó. Então acho que elas não veem o futuro não.

Ao mesmo tempo que lá na Tiradentes o touro foi bem astuto em abrir o cadeado usando o chifre, parecia até desenho animado. Saiu tranquilamente, bufou e coiceou o chão como quem diz: “é agora rapaziada” e disparo pra cima de tudo que se mexia. Nessa barbárie bovina duas motos, dois carros e um cara foram a baixo por culpa das chifradas. Sempre tem um cara tongo que não tem medo do perigo.

Como um casal de amantes tão atentos ao tato, olfato e paladar que esquecem que existe audição e que o mundo é muito maior que a distancia entre um olho e outro. Mais quem culparia Romeu e Julieta? Quem julgaria os amantes?

E, se não fossem eles se pegando de uma maneira que minha avó diria algo que começaria com “no meu tempo…” mas não terminaria de dizer o que diria por que o touro enfurecido e desgovernado acertaria em cheio um ônibus parado para alivio de todos, alegria de Thomas que filmou tudo e já estava colocando o vídeo na internet, e tristeza de Pedro, o protagonista dessa história. Homem honesto e trabalhador que ficou sabendo a cinco dias que ganhou na loteria. Único ganhador. E só jogou por que foi pagar as contas da casa e sobrou exatamente o preço de um joguinho e não queria levar moedas para casa.

Pedro está num dilema, conta pra esposa que ganhou um grana que pode mudar toda a sua vida ou partir pra rodoviária sozinho e volta pra sua terrinha. Algo que ele sonha fazer desde que entrou naquele ônibus na busca de uma vida melhor. Vida essa que nunca melhorou e, pelo contrario, parece ser uma gozadora de plantão. Como agora que um touro acerta seu ônibus e ele sabe que a empresa vai fazer ele pagar o prejuízo. Justo ele, um milionário anonimo. “Mais essa agora”, pensa Pedro “mais essa…”