Meu autor favorito

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Quando viu seu autor favorito ali, parado na esquina, cravou fundo os dedos no livro que carregava. Estava perto de mais, com aquele vasto bigode latino, o olhar britânico, o longo e desgrenhado cabelo de um deus metal. Observou o homem colocar a cigarrilha na boca, limpar os óculos de lentes redondas em uma flamula branca, e soltar uma fumaça azulada cheia de formas no ar. Parecia relaxar na noite fria, diante de um exclusivo restaurante da cidade.

Criou coragem para dar um passo, se aproximar daquele homem que, mesmo sem conhecer, mudara tanto a sua vida. Sentia as pernas vacilarem, o sangue parar, o coração correr em círculos com os braços moles sendo deixados pela inercia. O que falar? Já sentia uma gagueira que nunca teve brotar na boca. A vontade de dizer oque sentia lutava bravamente contra a sensação de que o homem na esquina era tão comum quanto ele e, desta forma, odiaria ser incomodado em um momento de relaxamento. Quando pendia por desistir de falar com o autor, como num passe de mágica, as ultimas palavras do ultimo livro que leu veio a mente. Depois, o começo daquele outro trouxe um sorriso involuntário, a cada nova lembrança uma nova emoção surgia e, com isso, a coragem de se aproximar do seu grande ídolo e dizer o que, há muito tempo, queria dizer, mas não sabia.

Sua aproximação chamou a atenção do autor, os olhos do homem foram levados para o grosso livro nas mãos do jovem e isso o fez sorrir. Reconheceu ali uma de suas obras. O autor levou a mão para dentro da jaqueta que usava, provavelmente na busca de uma caneta, já esperando, animado, um breve encontro com um fã. Já o garoto, ainda nervoso, segurava firme o livro nas duas mãos, sentido o suor frio escorrer pela palma gelada.

No momento em que o homem tirou a caneta e iniciou um cumprimento animado, o garoto puxou o livro para o lado e, com a força que conseguiu juntar, acertou a boca do homem, fazendo-o dar um vacilante passo para trás. O livro voltou a acertar a face, fazendo o homem cambalear mais uma vez e cair.

O autor assustado viu o jovem montar nele, travando seus braços entre os joelhos e, vez após vez, golpear violentamente seu rosto. Sangue espirrava a cada nova batida, o livro era uma desolação de folhas vermelhas e amassados. No entanto, nem chegava perto da obra que o rosto e a calçada ao redor se tornara. Lembrava muito uma tela do Pollock, o que fez o jovem bater mais e mais. Até o sangue daquele homem fazia arte.

Quando se deu por satisfeito, o jovem se levantou, sacudiu o livro para tirar o sangue grosso, olhou para o homem destroçado a sua frente, apontou o dedo em riste e disse:

– Isso é por brincar com meus sentimentos.