Mulher de amigo

imagem ripada do google

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Fazia quase um mês que ela estava ali. Era estranho ter sempre a mesma companhia para o café da manha e jantar. Ainda mais ela. Os olhos baixos, o cabelo meio mal escovado, um ar matinal, feminino e cansado. Ela comia de vagar o sucrilhos enquanto o noticiário na teve prendia sua atenção. Ele nunca reparara em uma mulher comendo, não era o tipo de coisa que se interessava, preferia trazer as suas vadias da rua e mandá-las embora antes do amanhecer do dia, sem comer juntos, sem ver televisão juntos, sem escutar ela chorando pela saudades do marido. Nada.

Já fazia quase um mês que não trazia garota alguma pra casa. Culpa dela, claro. Não iria querer incomodar uma viúva com esse tipo de coisa. Nunca reparara nela, era a esposa do seu melhor amigo, estavam sempre juntos, mas ela era como uma… uma coisa… não tinha forma, era a mulher do cara, então era um cara também. No entanto, talvez tenha sido no domingo, ela não desceu toda encapuzada como sempre descia, com o roupão, o cabelo desgrenhado, os olhos fundos, pantufas velhas de coelhinho e meias. Não. Ela desceu de camisola preta, com umas rendas sobre os seios. E descalça! Isso parece ter mexido com algo dentro dele, a camisola só ia até o joelho, então… então ele via a perna dela, os pés dela. E, quando andava, a camisola fazia uma sombra suave nas coxas. Só então reparou em como ela era nova. E linda. Ainda tinha um ar triste de quem deve ser protegida. O cabelo estava preso o que delineava bem seu pescoço fino. Decidiu não lembrar do decote e na suavidade que aquele tecido brilhante parecia tocar aquela pele. Pensou que ela se vestiu assim por ser domingo, e queria uma folga da choradeira toda, mas a indumentária só seguiu melhorando até agora. O rosto não estava mais tão marcado pelas lagrimas e parecia haver mais cor naquelas bochechas. Até a boca tinha saído daquele aspecto meio morto para um rosinha bonitinho. Não queria admitir que a desejava, queria só abraçá-la, só isso, só abraçar e dizer “está tudo bem”. Quem sabe então… parou de pensar. “Essas coisas vem pra cabeça por falta de vadias”, admitiu pra si mesmo.

Quando viu que ela começou a tirar os olhos da teve, se compenetrou na capa do jornal solto sobre a mesa e mordeu, pela segunda vez, sua torrada.

  • Viu isso? – ela perguntou.
  • Isso oque?
  • Acho que vai ter uma feira no centro, artigos masculinos e femininos. Vou lá dar uma olhada.
  • Bom. – ele disse sem olhar pra ela. Olhar para aqueles olhos parecia algo pecaminoso. – É bom sair de casa um pouco
  • É… – ela suspirou um pouco. – Quer ir comigo?
  • Não dá… – ele mexeu no jornal tentando validar que sua atenção estava ali, e não nela. – O departamento está pedindo relatório sem fim sobre o caso do seu… – se calou.

Os dois ficaram quietos. No velório do seu melhor amigo, quando a viu chorando desconsolada, foi a primeira vez que reparou que ela existia. O amigo falava da esposa o tempo todo, durante as rondas noturnas, quando preenchiam relatórios, no bar. Ele sempre tava tagarelando de algo bobo ou engraçado que ela tenha feito. Não que ele escutasse, era uma ladainha melosa. As vezes ele respondia “vadias não fazem isso”, e sorria, “fazem outro tipo de coisa”, e os dois riam. E agora ali estava ela, a coisa que seu amigo falava o tempo todo. Depois do padre falar, parou pra conversar com ela e ela chorou, falou, desatou a chorar, tratou ele como se o conhecesse há muito tempo, e talvez conhecesse. Ela não falou com mais ninguém no velório, só com ele, e falou, e chorou, e caiu nos braços dele e chorou. E não parou de chorar. No meio dos prantos ela dizia “o que vai ser da minha vida? Não tenho como manter a casa, não tenho pra onde ir, não tenho nada, oh” e chorava. Ele fez o que achou certo, ofereceu um quartinho pra ela ficar até acertar as coisas. Fez isso pelo amigo, talvez o amigo curtisse que ele cuidasse da pequena dele. Até as coisas se acertarem. Semanas depois a mãe da garota ligou preocupada. “Então ela tem família” pensou, “então ela pode voltar pra casa da mãe e eu voltar pra minhas vadias”, pensou. Mas não foi assim que aconteceu. Ela e a mãe não se bicavam, e moravam muito longe. Se ela fosse morar com a mãe ele não pensaria nela desse jeito. Tudo se resolveria, mas não, ela preferia ficar.

Seu pensamento só voltou para a mesa do café quando a mão dela tocou a sua.

  • Queria que você fosse comigo. – ela disse, com uma voz doce e suave.
  • E eu queria que você fosse morar com a sua mãe. – Ele disse grosseiramente. Bateu na mesa, se levantou sem olhar pra ela e saiu da cozinha.

Ela se levantou atras dele.

  • O que esta acontecendo? O que foi que eu fiz? – ela perguntou desesperada. – Não quis forçar nada. Desculpe.
  • Não é culpa sua. – ele disse percebendo que foi estupido. Ele sempre era estupido, mas se sentiu culpado dessa vez. – É minha.
  • Não entendo.
  • Eu… – ele olhou pra ela. E parecia que olhava pela primeira vez. Sempre parecia a primeira vez. Como era linda, como era frágil. Aquelas olhos tristes, aquele boca pequena. Ficou olhando pra ela, vislumbrando. Ela ajeitou instintivamente um cabelo atras da orelha, depois cruzou os braços fazendo os seios subirem um pouco, aumentando o decote. Ele reparou que o pé direito dela subiu sobre o esquerdo. Então percebeu que ela estava sorrindo. Avançou, tocou a cintura dela, tão fina que sua mão segurou-a por inteiro. Tirou a do chão sem falar nada, carregando-a no colo casa a dentro, os braços dela sobre seu pescoço, aquele cheiro adocicado.

Só então reparou que estava ali, no velório, com a viúva chorando no seu terno novo, falando e chorando e falando. E todos olhando para os dois e indo embora. E o amigo ao lado, com um ar sério, fúnebre, morto. Se atentou a detalhes do cenário, tentou entender sobre oque ela estava falando como quem tenta dar uma opinião em uma conversa que pegou no meio.

  • Será que eu… – ela disse em meio aos soluços. – Será que eu podia ficar na sua casa um tempo?
  • Não. – Disse, afastando ela de si. – meus pêsames.

Parou diante do caixão, deu um soquinho na mão do amigo, “nos vemos, cara”, disse mentalmente e saiu pela porta sem olhar para trás, na procura de um bar.