É…

Imagem retirada do Google

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Então enfiam uma faca com os dois gumes de serra dentada bem no meio do seu peito e você tem que se manter calmo. Calmo e sem respirar fundo, por que dói. E ali está você, tentando evitar fazer movimentos bruscos, é o pior momento para entender que o toque do seu pé com o chão faz todo seu corpo vibrar, então, passos lentos. Bem que você quer puxar isso para fora e deixar jorrar a merda toda e ficar em posição fetal no chão. Morrer ou viver com dor? Acho que é uma das questões da vida.

E coragem pra puxar a porra de uma faca com os dois gumes dentados do meio do peito? E sem respirar fundo, a passos lentos pra qualquer lugar.

O bom, você pensa, é que uma faca enfiada no meio do peito é como um piercing de nariz ou um parafuso em uma perna dilacerada, tipo, mais ou menos parecido. Eles serão repelidos do corpo. É raro um corpo aceitar um objeto metálico estranho dentro dele, então, lentamente ele expele essas coisas. Ou se acostuma, o que da na mesma, talvez. Daí você vive com dor, mas uma dor acostumada. É só não mexer que está tranquilo e só dói quando respira.

O problema é que, como o Piercing de Nariz, as pessoas notam já na cara  que tem alguma coisa diferente.

– Ta tudo bem?

– Claro, tranquilo. – E você dá aquela cuspidela involuntária de sangue.

– Você não parece bem.

– To susse, relaxa. – Você sorri com dentes avermelhados.

– É que… da pra ver o cabo da faca forçando a sua camisa.

– Humm… legal né?

Não que a faca seja um problema. A pior parte é saber que você ajudou ela entrar ali. Foi deixando sabe? Como aquele zelador de zoológico que foi devorado pelo leão que fugiu da cela. Nas câmeras de segurança da pra ver que ele deixou a cela aberta e foi fazer alguma coisa. Ele confiou no leão. Quem confiaria em um leão?

Então tem toda a porra da culpa venenosa na qual cada dente da faca foi ungido que ainda faz você olhar pra faca e dizer “É…”, e sem respirar fundo.

E a vida? Há, a vida, essa pentelhinha bonitinha. A vida é como a filha metida e chata, de 5 anos, do seu chefe. Ela vem e morde, chuta, joga refrigerante na sua cara, te chama de feio e você ainda tem que elogiar e segurar no colo. A vida… uma gracinha ela.

A vida vem com dedinhos arteiros e um sorriso travesso e diz “Ei, tem uma faca aqui” e sacode o cabo pra cima e pra baixo. “Cara, olha aqui, uma faca” e, se você olhar, ela levanta o dedo e acerta seu nariz. E ri, ri como se fosse a melhor piada do mundo, nova e quente, recém saída do inferno das piadinhas. Você tem vontade de estufar o peito e gritar umas boas verdades, mas você não quer respirar fundo e, com toda certeza, assim que você terminar de gritar e sangrar tudo que você tem entalado na garganta, o seu chefe vai estar bem atrás de você. Vai dar de dedo bem no meio do seu peito, ou melhor, bem no cabo da faca, dizendo que você não pode tratar a filha dele assim. É você ainda perde o emprego, o que vai ser um saco, por mais que seja um emprego de merda em uma empresa de merda.

O bom mesmo é ficar no sofá, olhando aquela pelota de areia molhada de lagrimas e sangue entupir a passagem dos outros grãos de areia da ampulheta. Mas não tem o que fazer. Talvez a gravidade ajude, talvez uma hora ela se dissolva. É só não respirar fundo que tudo vai ficar bem.