Parado e branco

Foto de Amanda Iargas

Foto de Amanda Iargas

       O quarto estava parado, branco… o ar morno parecia ter parado ali e recusado a se mover. A janela batia, mas vento que é bom, nada. O ritmo das batidas são descompassadas, as vezes violentas as vezes sem som algum. Mas não afetava o quarto. O soro pingava, lentamente, pinga, pinga, pinga, e vai o soro. Se contar foneticamente as gostas caem no “pi” de paralelepípedo, as vezes no “pe”, não mais nem menos que isso. E bolhas sobem pelo pacote do soro, mais rápido que as gotas caindo, praticamente uma e meia por silaba da palavra métrica, como uma glock calibre 22 disparando e colocando em câmera-lenta uma nova bala na agulha.

E o soro vai pelo corpo, lentamente, se misturando em pouca quantidade na veia da menina deitada na cama ao meu lado. Eu, esparramado na cadeira vislumbrando o final da obra “O purgatório” de Mario Prata. Tudo parado. A vida acontecia ali, nas gotinhas. A garota dormia, do outro lado, uma senhora reflete sobre o nada, com os olhos vazios para a janela, indiferente. A menina que ela acompanha, olha para o teto, para janela batendo, as vezes fecha os olhos, ensaia uma cochilo… pinga, pinga, pinga…

O quarto de um hospital na espera pela alta parece um quarto de hospício: branco, silenciosos, somente nós e nossas loucuras. Mesmo com outros internos, nada parece afetar o distanciamento de nossa mente e a extensão da criatividade. Por exemplo, após observar os pingos, medir o timing da vida que acontece ali, refletir que a janela é tão inerte ao quarto quanto os lençóis sobre as camas, decidir escrever, peguei o notebook, liguei, e comecei a digitar, o que será que as pessoas do lado estão pensando disso? No que minha namorada esta sonhando deitada na cama, somente com o peito subindo e descendo?

O silencio castiga, oprime. Agora que ia começar uma reflexão sobre o silencio e as relações de poder, o medico entra, pede silencio, para o próprio silencio, e acorda menina ao lado. Vai para a senhora e sua acompanhante e lhe dá as indicações, explica os curativos, os procedimentos cirúrgicos, pratico, explica, coloca o que tem que ser posto, explica os pormenores, faz alguns comentários engraçados, explica outras coisas, repete, coloca datas, horários, faz voz de quem explicou tudo e não deixou duvidas. Papel de medico, bom médico. Faz gestos de mais, usa os gestos como se fossem palavras, ficando em silencio. Brinca, se despede.

A menina ao lado voltou a dormir, as outras duas conversam sobre algumas coisas que o medico disse, sobre a alta, relembram o horário de sair.

Pouco tempo e o silencio. Sussurros, conversas, colocações, esclarecimentos. Silêncios. O que o medico pensou quando eu estava escrevendo em quanto ele falava?

 É engraçado. É um quarto branco, deve ter uns 4 metros por 6, e coloque dentro disso um banheiro de 2 por 3. Algo assim, tirado de olho. E coisas invisíveis acontecem. Pinga, pinga, pinga…

Eu penso em zumbis. Sim, eu quero falar disso, zumbis. Estou em um hospital, sem duvida daqui sairiam os zumbis. Será que as mulheres ao meu lado pensam nisso? Zumbis? Pessoas morrem em hospital. Muitas pessoas morrem. As possibilidades de aqui voltar algo a vida é enorme, bem maior do que no meio da rua, ou na casa de alguém. Hospital, é daí que vai sair as infecções que avassalarão o mundo! Pessoas viajam longos percursos para encontrar um bom hospital, e morre nele. Pá! Zumbi! Cérebro, cérebro, cérebro….

A vida pode acontecer em um hospital. Nos corredores não tem nem extintor nem machados de incêndio…  no quarto, a mão, não tem nada para derrubar um zumbi. Daria para fazer barricadas com as camas, tentar desmontar o ventilador e fazer um cano… não tem como sair pela janela, alto de mais. Pois é, tudo fica perigoso! As pessoas tinham que pensar nisso. Hospital é ninho de zumbis, deveriam deixar tudo armado para, quando acontecer, quem esta dentro conseguir sair! Por que, numa infestação, se alguém procurar um hospital, é por que ta virando zumbi, então, seria bom ter uma caixa com armas e munições em todos os andares! Segurança em primeiro lugar.

Pinga, pinga, pinga… paralelePÍpedo… agora ta caindo no segundo “le”… a janela não bate mais, muito raramente. E o vento morno continua parado. Demora a passar o tempo, as coisas acontecerem… dormem as duas meninas na cama. A senhora ao meu lado encara o chão e esfrega as mãos. Eu paro de digitar.