Exercício de abstração – Sobre Propaganda e Gasolina

images (1)

Dalí Atomicus – Salvador Dalí

            Vivemos em um mundo onde abstrair é sobreviver. Gosto de generalizar “Um mundo onde…”, parece trailer de ficção cientifica, mas creio que seja mais ou menos isso.

As propagandas de hoje parecem tentar construir um discurso que tenta criar a necessidade de uso de um produto e, mais que isso, provar que o produto de fato, funciona. Eu acho curiosas essas relações da TV, será que alguém realmente acredita que seu banheiro será invadido e será questionado se o vaso sanitário está limpo? Que a professora que usa o produto de limpeza X é, de fato, uma professora? Dando seu relato esclarecido pedindo “confie em mim, eu garanto”?

A arte do entretenimento usa da abstração como ferramenta fundamental para conquistar fãs, por isso define um gênero para si mesma. O Gênero é uma forma de deixar o receptor pronto para a obra, você não irá ver Ficção Cientifica tentando encontrar ali questões reais, por mais real que eles tentem ser, é a abstração que permite você aceitar os aliens devorando humanos na tela.

Abstrair é conseguir absorver o que se passa no filme, livro, HQ, etc. Aceitar robôs gigantes, sons no espaço, monstros e tudo mais. Você sabe que não são reais, mas fazem sentido com aquela obra. Você sente prazer estético, mental e, as vezes, até moral, com o que dialoga e aceita.

Abstrair é um exercício importante, principalmente quando lidamos com algo que não é real. Contudo, creio que a familiaridade com que lidamos com a abstração acabe gerando um sentimento de descrença. Ao ver jornais, ler alguma noticia, é difícil acreditar em toda a realidade da coisa. Há um jogo de discurso que incomoda, como se entendêssemos que tudo ali não passa de uma encenação. O fato pode ser real, mas a explicação, a forma como é mostrada parece não condizer com a realidade.

5ª imagem

Les Amants – René Magritte

Hoje eu via no jornal que o aumento da gasolina e, daqui a pouco, do álcool, é culpa da falta de investimento da indústria privada no dito setor e, com pouca produção acaba gerando um aumento no preço do produto. Lógica simples: menos produto, mais procura, o capitalismo late alto e os preços sobem, é assim desde a idade média. Contudo, isso está acontecendo justamente no carnaval? Quando as pessoas irão encher seus tanques que não encheram antes, pois a gasolina já estava alta? Nem um boi dormiria com essa.

Daí falam do açúcar: “Mas se o açúcar estiver caro, daí sim eles irão preferir fazer açúcar ao invés de álcool”. Puxa vida, acho que o nosso sistema econômico não está primando pela qualidade de vida.

Essa política do dinheiro não assusta mais, é uma rotina semanal. O que me incomoda é o jornal, que deveria ser critico ao sistema, defender o consumidor, apontar culpados e soluções, chamar um intelectual gabaritado para explicar os pingos nos is, surgir para justificar o circo.

Talvez devamos abstrair, talvez seja isso mesmo. Maldita indústria privada brasileira, que não investiu em um produto em um momento do calendário anual desse país que diz “Esse produto dará dinheiro”. Mas só consigo ser descrente.

About these ads